quarta-feira, 4 de julho de 2007

Personagens da cidade (Coimbra)

As lavadeiras do Mondego com a cidade ao fundoLeiteiras à entrada da Ponte de FerroGrupo de leiteiras na Alta
Vendedoras do Mercado D. PedroVAguadeiras
Dois mundos frente a frente: o futrica (tricana) e o universitário (estudante)

Hoje, dia 4 de Julho, feriado municipal de Coimbra por ter sido nesse dia, corria o ano de 1336, que faleceu, em Estremoz, a Rainha Santa Isabel, Padroeira da Cidade, resolvi partilhar convosco algumas personagens que fizeram parte (algumas ainda fazem) da história de Coimbra. Da Rainha Santa já vos dei conta aqui.

Em Coimbra sempre existiram dois grupos rivais: de um lado os futricas (os que não estudavam) e do outro os estudantes, depreciativamente conhecidos, muitas vezes, entre os primeiros, como os corvos ou os carvoeiros devido ao traje académico.

Nas fotos temos representantes dos futricas (os universtários ficam para o próximo post):

As lavadeiras, que, no Mondego, lavavam a roupa dos estudantes e das senhoras (pessoas com mais posses), colocando a roupa a corar nos areais do rio.

Ainda me lembo da senhora Silvina Gata a lavar a roupa nas rampas junto à estação. Uma verdadeira tricana. Sobre a origem do seu nome, fez esta quadra dedicada à sua família:
"O meu pai é José Gato
Minha mãe Gata Maria
Em casa todos são gatos
Sou filha da gataria"

As leiteiras que, com as suas vasilhas, vendiam o leite pela cidade. Lembro-me da D. Amélia que, no bairro onde vivia a minha avó materna, vendia o leite que transportava nas tais vasilhas. Outra alternativa era comprá-lo numa quinta ali perto. Para isso havia umas vasilhas pequeninas.
As camponesas que vinham vender os seus produtos ao mercado e que calçavam os chinelos a meio da ponte de ferro (as que vinham da margem sul) porque era proibido andar descalço na cidade. Questões de higiene dizia-se. Para mim era uma maneira de se impedir que a pobreza se passeasse pela cidade. Era vê-las trazer as tamancas ou chinelos em cima da cestas e parar a meio da ponte para se calçarem.

As aguadeiras, que vendiam água na Alta. Nesse tempo, muitas casas não tinham água canalizada. Não há muitas anos, em algumas vilas (bairros populares) ainda havia casas sem água, havendo um fontenário público.

A ligação cidade/universidade, patente na foto com uma tricana e um estudante. Quando havia problemas entre estudantes e futricas (o que era comum), geralmente, colocavam-se do lado dos primeiros.

Muitas serenatas se fizeram à contas destes amores, embora muitas delas soubessem que eram amores passageiros:
Dizem que amor de estudante
Não dura mais que uma hora:
Toca o sino, vai p'ras aulas;
Vem as férias vai-se embora.

17 comentários:

Antona disse...

Impactantes, documentos historicos.
Um abraÇo

João disse...

De facto amigo Tozé, as paixões, ao mesmo tempo que nos alargam o coração, estreitam-nos a visão.
Neste conjunto riquíssimo de fotografias ficaram-me os olhos presos à quinta fotografia e ao objecto que a aguadeira tem à cabeça. Um magnífico registo fotográfico do tradicional asado de Coimbra, obra maior da olaria de antanho.
Para mim, o encanto da olaria deriva da magia da sua criação e da beleza das suas formas mas, sobretudo, do facto de ser o produto da exigência colectiva da comunidade que satisfaz e serve. A olaria é sempre património de uma comunidade, e não de um homem. Na ondulante robustez da forma do asado podem-se ver, ao mesmo tempo, as curvas das guitarras de Coimbra e do feminino inspirador dos seus trinados.
Uma última palavra para o testemunho na primeira pessoa que acompanha as fotografias: excelente!

GarçaReal disse...

Já agora....

Dizem que o negro é triste
Ditado sem valor
Toda a capa de estudante
É negra e fala de amor...

bj

F F Moniz disse...

Obrigado pela visita ao Voyeur! Vc foi mt gentil. Adorei as fotos. Até a vista!

ManuelNeves disse...

Viva.

Ricas fotos, ricas estórias, ricas memórias que ainda transporto do meu tempo de menino no então Bairro da Caixa a Providência, ali encostado ao Bairro Norton de Matos e onde me lembro perfeitamente da "leiteira".

Obrigado por este refresco de memória.

Um Abraço

Lu disse...

Gostei de viajar no tempo contigo. A minha mãe ainda lava a roupa no rio ( quando eu era miúda também a ajudava). Às vezes o tempo não dá assim tantas voltas.

Beijinhos e obrigada pelas visitas.

GK disse...

Até já tenho vergonha de comentar estes teus posts. Acho que vou mandar os (ppuscos) leitores do Coimbra directos para aqui e pronto...

Obrigada...

Bj.

margarida disse...

Coimbra, que saudades já fui tão feliz no Penedo da Saudade.
Obr.pela visita ao meu blog.
Bjnhs.

Teresa David disse...

Adoro estas fotos com a patine do tempo. Curiosamente lembro-me na 1ª infância de alguém me cantarolar essa quadro da família de gatos! Gostei tb das recordações escritas que sempre me dão prazer ler.
Já tenho é saudades de ver por aqui uma novas receitas de crescer água na boca. Agora tem sido mais histórias e menos sabores...
Bjs
TD

Professorinha disse...

Mas que recordações deliciosas!!

Aqui também chamam morcegos aos estudantes... Mas só aqueles que não o são. Deve ser inveja eheheh

Pitanga disse...

Realmente o rapaz deu-se conta ontem de que era feriado quando foi ao Banco.
A história da Rainha Santa é uma das mais lindas.


abraços

al cardoso disse...

Que magnifico trabalho de divulgacao da Coimbra antiga!

Um abraco mesmo de d´Algodres.

poeta naïf disse...

Andas sempre à cata de boas histórias.
Vê se arranjas tempo para descobrir alguma coisita do saudoso "Taxeira", do Carlos dos Jornais, dos "manos", de quem te mandei uma fotos aqui há dias.
São figuras recentes mas já desaparecidas, incómodas na altura, mas mais agora por descobrirmos que não lhes soubemos merecer a mendigança.
Um abraço.

Teresa disse...

Parabéns pelo teu blog, rico em História e carinho por Coimbra.
Bom fim de semana
Te

Menina_marota disse...

Comovi-me. Não posso dizer agora (estou comovida demais) mas este texto encheu-me a alma... e as fotos também.
Um abraço

=^.^= Tarina =^.^= disse...

Coimbra dos amores...
Coimbra é bonita :)

Uma beijoca To Zé!

=^.^=

Marta disse...

queria saber se ainda há lavadeiras no rio porque gostava de as fotografar