sábado, 7 de julho de 2007

Personagens da Coimbra Universitária

(Dois mundos frente a frente: o futrica (tricana) e o universitário (estudante)
(O Lente - professor universitário)
(O Bedel)
(A Trupe)
(Uma trupe em Sub-Ripas)(Grupo de fado)
Retomo hoje o tema das personagens que fizeram (algumas ainda fazem) a história da Lusa-Atenas.

Início a postagem com a fotografia com terminei a última: a foto com a tricana e o estudante que marca a ligação entre dois mundos: o universitário e o futrica.
A ligação cidade/universidade, está bem patente na foto com uma tricana e um estudante. Muitas serenatas se fizeram à contas destes amores. Muitos amores se desfizeram com o final das aulas e dos cursos.

O Lente, nome dado antigamente aos professores universitários e que tem a sua origem na palavra ler. Na idade Média, Lente era o que lia os textos de aujtores consagrados, que depois eram comentados pelos alunos, devendo chegar-se sempre a uma conclusão pré-estabelecida. Quando isso não acontecia o professor punha fim à contenda com a famosa frase: Magister dixit (o mestre disse).

O Bedel, palavra originária do latim (pedellus, bidellus) e que significa aquele que convida, que chama. É um oificial administrativo da universidade e que tinha, também, uma autioridade policial, quando as universidade tinham jurisdição própria sobre os estudantes. A Universidade de Coimbra tinha prisão própria que estava instalada no espaço existente por baixo da Biblioteca Joanina. *

As Trupes. Temidas pelo caloiros, percorriam a cidade à procura dos caloiros que não respeitavam a hora de recolher para irem estudar e/ou dos que não estavam devidamente trajados. Algumas cometeram grandes exageros na sua caça.

O Fado ou Canção de Coimbra. Inicialmente marcado pelas Serenatas feitas às janelas das jovens, e não só, da cidade, veio a ganhar outro âmbito na década de 60, com a adopção de outro tipo de letras e de intervenção. Continua a ser uma das marca distintivas de Coimbra.Gostaria, no entanto, de acrescentar que também os futricas tocavam, cantavam e faziam serenatas: as famosas serenatas futricas que alguns grupos etnográficos da cidade de vez em quando recuperam. Aliás, alguns dos grandes nomes da Guitarra coimbrã eram futricas: querem melhor exemplo do que Artur Paredes, pai de Carlos Paredes.

*O Bedel
(...) O Bedel de cadahua das faculdades, chamará à Congregação dellas os Lentes, & Doutores, quando se ouueverm de ajuntar por mandado do Reitor. Terá cada hum delles hu rol, em q estarão escrittos todos os Estudantes de suas faculdades, com declaração do tempo, em q cadahum começou a estudar, & os annos que tem de estudo; pera que se saiba, se tem tempo bastante, pera responder, & arguir nos actos de exercicios, que ordinariamente se hão de guardar. E auisará disso ao Reitor, pera os constranger a teré os dittos actos nos dias assinados, & arguirem no lugar que lhes couber. Os dittos Bedeis das faculdades, em que forem os actos, ou graos, seraõ obrigados a leuar pessoalmente todos os pontos, & as conclusoes de quaesquer actos ás casas dos Doutores, Mestres, ou Lentes, que podem, ou deuem ter presentes nos taes actos. (...)
In Estatutos da Universidade de Coimbra, 1559
P.S.: Vou estar ausente por algum tempo, por questões de trabalho. Até ao próximo fim-de-semana.

15 comentários:

Jofre Alves disse...

Caro Toz� para mim, apreciador da fotografia como documento hist�rico, � sempre um renovado prazer visitar o teu sempre interessante blogue, pela sua superior qualidade, que tanto aprecio. Boa semana.

Maria disse...

Belíssimo post, fantásticas fotografias.
Bom trabalho e bom fim-de-semana.

Um abraço

Nuno disse...

Eu continuo a dizer que é absolutamente notável este levantamento histórico que estás a fazer da cidade de Coimbra. Parabéns e obrigado por tudo aquilo que dás a conhecer.

Um abraço,
Nuno.

asn disse...

O pouco tempo que andei pela Universidade de Coimbra permitiu-me, apesar de tudo, aperceber-me "in loco" do quão tradicional e histórico era o ambiente académico Coimbrão dos tempos retratados.
Bom trabalho, Tozé.
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A propósito do comentário qye deixou no meu post sobre TORGA gostaria de na primeiríssima oportunidade, poder trocar umas impressões sobre aquele grande Mestre das letras em Portugal. É cá um suqema que o ELOS CLUBE de LEIRIA anda a gizar e que todos os contributos serão poucos.
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Bom trabalho.
António Nunes

Teresa David disse...

mais uma oportunidade de aumentar os meus conhecimentos, transmitidos por si desta forma tão bela em imagens e em palavras. O Bedel não sabia mesmo quem seria!
Bjs
TD

GK disse...

E quantas histórias não sabemos todos sobre lentes e futricas... :)
Bastava o Maio de 69...

renatinha! disse...

Vim agradecer a visita!

Como tem vários blog escolhi um aleatoriamente...

Beijão

bettips disse...

Que gosto tens tu em nos mostrares a parte "bela" do antigamente! Assim, é um prazer dar-te Parabéns pelo bom gosto das imagens e palavras. Abç

aminhapele disse...

Estou de volta Tózé.
As histórias continuam excelentes.
Um abraço.

Professorinha disse...

Mais uma viagem pelo antigamente de Coimbra. Eu gosto muito e Coimbra, ainda mais agora que está a crescer bem bonita!

Fica bem!

Kalinka disse...

Ol�
vou at� Coimbra neste fim de semana, 14 e 15 de Julho.

Oliven�a � daqueles nomes que j� todos ouvimos falar. Sabe-se que � uma terra que fica em Espanha, mas que j� foi portuguesa e que alguns dizem ainda ser portuguesa. Em tra�os gerais, isto deve ser tudo o que a maior parte dos portugueses sabe a respeito de Oliven�a. Poucos a visitaram ou se deram ao trabalho de consultar um livro sobre a hist�ria desta vila.
Oliven�a situa-se no Alto Alentejo, na margem esquerda do Rio Guadiana, pr�xima de Elvas. Mais de 80% dos oliventinos ignoram os factos e acreditam que Oliven�a foi trocada por Campo Maior.
E TU...QUE ACHAS?
Que sabes sobre Oliven�a?

Beijitos.

Lu disse...

olha, em primeiro nao percebi os erros nos comentarios anteriores. Nao vou colocar assentos, pode ser por essa razao.

Mais uma viagem ao passado... adorei ser caloira e das praxes a que fui sujeita - nenhuma reclama�ao a fazer. Uma vez participei numa trupe... nao gostei, nao faz o meu genero.

Um abra�o Toze.

Lu disse...

Sim, eu tinha razao ... e dos assentos e das cedilhas.

Anónimo disse...

in Diário de Notícias 15/07/2007

"Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se na Espanha"


JOÃO CÉU E SILVA (texto e foto)
Este foi o regresso mais longo de José Saramago a Portugal desde que a polémica que envolveu a candidatura do seu livro O Evangelho segundo Jesus Cristo ao Prémio Literário Europeu o levou para um "exílio" na ilha espanhola de Lanzarote. A atribuição do Prémio Nobel parece tê-lo feito esquecer essas mágoas, mas não amoleceu a sua visão da sociedade e da História, que continua a ser polémica. Como se pode ver nesta entrevista.

Durante dois dias, o Nobel da Literatura português sentou-se no sofá e analisou o estado do mundo.

Na única entrevista que concedeu durante a temporada passada na sua casa de Lisboa, falou muito de política, mais de literatura e também da vida e da morte. Pelo meio ficou o anúncio da criação da fundação com o seu nome e a revelação de que está a escrever um novo livro.

A união ibérica

Este regresso a Portugal é um perdão?

O país não me fez mal algum, não confundamos, nem há nenhuma reconciliação porque não houve nenhum corte. O que aconteceu foi com um governo de um partido que já não é governo, com um senhor chamado Sousa Lara e outro de nome Santana Lopes. Claro que as responsabilidades estendem-se ao governo, a quem eu pedi o favor de fazer qualquer coisa mas não fez nada, e resolvi ir embora. Quando foi do Prémio Nobel, dei uma volta pelo país porque toda a gente me queria ver, até pessoas que não lêem apareceram! E desde então tenho vindo com muita frequência a Lisboa.

Vive num país que pouco a pouco toma conta da economia portuguesa. Não o incomoda?

Acho que é uma situação natural.

Qual é o futuro de Portugal nesta península?

Não vale a pena armar -me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos.

Política, económica ou culturalmente?

Culturalmente, não, a Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto da Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis. Quando olhamos para a Península Ibérica o que é que vemos? Observamos um conjunto, que não está partida em bocados e que é um todo que está composto de nacionalidades, e em alguns casos de línguas diferentes, mas que tem vivido mais ou menos em paz. Integrados o que é que aconteceria? Não deixaríamos de falar português, não deixaríamos de escrever na nossa língua e certamente com dez milhões de habitantes teríamos tudo a ganhar em desenvolvimento nesse tipo de aproximação e de integração territorial, administrativa e estrutural. Quanto à queixa que tantas vezes ouço sobre a economia espanhola estar a ocupar Portugal, não me lembro de alguma vez termos reclamado de outras economias como as dos Estados Unidos ou da Inglaterra, que também ocuparam o país. Ninguém se queixou, mas como desta vez é o castelhano que vencemos em Aljubarrota que vem por aí com empresas em vez de armas...

Seria, então, mais uma província de Espanha?

Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla la Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria. Se Espanha ofende os nossos brios, era uma questão a negociar. O Ceilão não se chama agora Sri Lanka, muitos países da Ásia mudaram de nome e a União Soviética não passou a Federação Russa?

Mas algumas das províncias espanholas também querem ser independentes!

A única independência real que se pede é a do País Basco e mesmo assim ninguém acredita.

E os portugueses aceitariam a integração?

Acho que sim, desde que isso fosse explicado, não é uma cedência nem acabar com um país, continuaria de outra maneira. Repito que não se deixaria de falar, de pensar e sentir em português. Seríamos aqui aquilo que os catalães querem ser e estão a ser na Catalunha.

E como é que seria esse governo da Ibéria?

Não iríamos ser governados por espanhóis, haveria representantes dos partidos de ambos os países, que teriam representação num parlamento único com todas as forças políticas da Ibéria, e tal como em Espanha, onde cada autonomia tem o seu parlamento próprio, nós também o teríamos.

Há duas Espanhas

Os espanhóis olham-no como um deles?

Há duas Espanhas neste caso. Evidentemente, tratam-me como se fosse um deles, mas com as finanças espanholas ando numa guerra há, pelo menos, quatro anos porque querem que pague lá os impostos e consideram que lhes devo uma grande quantidade de dinheiro. Eu recusei-me a pagar e o meu argumento é extremamente simples, não pago duas vezes o que já paguei uma. Se há duplicação de impostos, então que o governo espanhol se entenda com o português e decidam. Eu tenho cá a minha casa e a minha residência fiscal sempre foi em Lisboa, ou seja, não há dúvidas de que estou numa situação de plena legalidade. Quanto aos impostos, e é por aí que também se vê o patriotismo, pago-os pontualmente em Portugal. Nunca pus o meu dinheiro num paraíso fiscal e repugna-me pensar que há quem o faça. O meu dinheiro é para aquilo que o Governo entender que serve.

Mas não pode negar que o olham como um Deus...

Não diria tanto...

Mesmo sendo a crítica espanhola tão positiva em relação à sua obra?

Também já foi uma ou outra vez um pouco negativa - talvez devido às minhas posições políticas e ideológicas - mas de um modo geral tenho uma excelente crítica em toda a parte, como é o caso dos EUA, onde é quase unânime na apreciação da minha obra.
in Diário de Notícias 15/07/2007

Jofre Alves disse...

Vim deixar um abraço com o desejo de um bom fim-de-semana.