sábado, 20 de novembro de 2010

Pedido de desculpas

Depois de um agradecimemento público, nada como dar a mão à palmatória (ai os especialistas em pedagogês que me vão cair em cima!) e apresentar um pedido de desculpas público.

Quero pedir desculpa aos milhares de alunos que me passaram pelas mãos, nestes 23 anos que levo de ensino particular (tenho ainda mais 5 de ensino estatal), pelo facto de nunca os ter esclarecido sobre os malefícios que sofriam por estar numa escola deste tipo e, ainda por cima, católica.

Quero pedir desculpa a alguns professores do ensino superior que me disseram que os alunos provenientes do meu colégio se distinguiam dos outros, não apenas pela sua maneira de estar e de ser mas também pela sua competência.

Quero pedir desculpa a todos os pais que nos confiaram os seus filhos (alguns fazendo várias dezenas de quilómetros por dia) por lnão os termos avisado sobre o mal que estavam a fazer aos seus filhos.

Quero pedir desculpa a todos aqueles que, tendo sido meus alunos no secundário, tiveram classificações nos exames nacionais sempre bem acima da média nacional (chegaram a estar no top10) e nunca mais do que 0,5 valores, em média, abaixo das classificações internas. Penitencio-me por ter conseguido que trabalhassem e, com o seu esforço, apesar de me terem como professor, terem alcançado esses resultados e de apenas, ao longo de vários anos, ter tido um aluno que não fez a disciplina comigo.

Quero pedir desculpa a todos os colegas do ensino estatal que nos confiaram os seus filhos, para aqui fazeram o seu percurso escolar, por não os ter precavido para o facto de estarem a esbanjar a possibilidade de os seus filhos poderem ser educados numa escola laica.

Quero pedir desculpa a todos os alunos com NEEP e a todos aqueles que beneficiam de acção social escolar, pelo facto de os termos aceitado e de termos trabalhado com eles da melhor maneira que sabíamos, apesar de, alguns deles, terem sido recusados noutras escolas, por não haver vaga (sic).

Quero pedir desculpa aos estagiários que aqui fazem o seu estágio, pois não os avisámos que iam ficar estigmatizados pelo facto de nos terem escolhido, isto apesar de, hoje, muitas escolas não os aceitarem porque as horas dos orientadores deixaram de ser pagas.

Quero pedir desculpa a todos os defensores do pensamente único, por pensar de maneira diferente e achar que democracia é poder expressar livremente essa diversidade. Quero, aliás, garantir-lhes que lutarei com todas as minhas forças para que tenham toda a liberdade de dizer o que lhes vai na alma, por mais estapafúrdio que seja. Como não sou parvo, sei desde já, que no dia em que puderem, me cortarão a possibilidade de me expressar livremente, mas mesmo assim acho que têm o direito de pregar a sua mensagem à vontade, mesmo que travestidos de cordeiro.

Quero pedir desculpa por ser filho da escola estatal, que sempre frequentei, e onde, no secundário, fui um corpo estranho, numa turma com apelidos sonantes, e que, por isso, tinham tratamento diferente, enquanto eu não passava do filho do dono de um pequeno restaurante (de que aliás muito me orgulho!).

Quero pedir desculpa por não entender aqueles que me querem ajudar, privando-me do meu posto de trabalho, a troco de um pretenso bem maior que não consigo descortinar.

Quero pedir desculpa a todos aqueles que teimam em apelidar-se de professores, mas que não dão aulas há anos (às vezes há mais de duas dezenas) e que congeminaram uma maneira de eu nunca mais poder trabalhar no ensino estatal, pois apesar da minha experiência, estou atrás de qualquer novato que tenha nem que seja um dia de aulas no ensino estatal.

Quero pedir desculpa por não entender, porque motivo hão-de esses pseudo-professores progredir na carreira como se estivessem, efectivamente, a leccionar e estar à minha frente em qualquer concurso de professores.

Quero pedir desculpa aos contribuintes deste país por ter contribuído para um orçamento inferior do Ministério da Educação, pois nunca tive reduções de horário e sempre tive uma tabela salarial mais baixa.

Queria pedir desculpa por não me sentir explorado e não entender de que forma é que o fecho da minha escola contribuirá para eu deixar de ser explorado.

Quero pedir descupla por não ter a capacidade de usar uma fonte de informação (seja o Ministério ou a OCDE) para justificar uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo.

Quero terminar por pedir desculpa a todos aqueles a quem me esqueci de pedir desculpa. Acreditem que não foi por querer.

Não posso terminar sem um agradecimento a todos aqueles que, tendo sido meus alunos, me fizeram crescer como pessoa e a todos os pais que me (nos) confiaram os seus filhos.

5 comentários:

aminhapele disse...

Nem sei que diga.
Um abraço.

Anónimo disse...

Palavras para quê?...
Neste desgoverno sem tino, temo que não se perceba a ironia das tuas palavras...
n

al cardoso disse...

Esta tudo dito, digo eu!

Um abraco caro amigo, do dalgodres

Clarice disse...

Nem desconfiamos de tudo o que ocorre em tua pátria, mas, se em boa hora chegar, que seja um abraço solidário.
Lute pelos teus direitos e faça dessa dificuldade e injustiça(depois de passada a mágoa) um motor para mudar tua vida. Quem sabe que dias melhores te esperam em outros caminhos?
Acho um atrevimento demminha parte dizer que fui professora, porque só ajudei nesse mister por 4 anos(inesquecíveis)e, pelo fato de nunca deixarmos de aprender e de ensinar, mas quando optei por outro caminho descobri que podia mais do que imaginava.
Abraço e lute!

as-nunes disse...

Já li e subscrevi uma PETIÇÂO PÚBLICA a este respeito.
Muito francamente, fui militante activo do PS durante muitos anos, lutei na rua, nas empresas, nos sindicatos, contra a demagogia do chamado "centralismo Democrático", contra a ideia de que o Estado é tudo, não há vida para além do Estado (entenda-se instituições tuteladas e geridas pelos dinheiros públicos), com estatutos de "patrões").

O que se verifica agora?
Voltamos a querer impingir a figura de que o Estado é que nos impõe a forma de pensar, é que sabe gerir as Finanças Públicas (deixa-me rir), que afinal somos um País em que os votos dos funcionários públicos é que são importantes para manter determinado partido no Poder?

Que caminho tortuoso e contraditório estamos a percorrer!